quarta-feira, 10 de março de 2010

Destinatário

Resolveu escrever-lhe uma carta.
Foi um adecisão súbita, meio "de supetão" mesmo.
Pegou papel, lápis, borracha; arranjou uma mesa e uma cadeira confortável, e lá sentou.
O dia já havia ido embora, e a fraca iluminação vinda da lâmpada do abajur proporcionava um maior fluxo de idéias, de pensamentos. Em outras palavras, favorecia a imaginação.
Bom, hora de começar.
Mas... de que jeito? Ah sim, como se fosse fácil para ele dar início a uma espécie de conversa indireta com alguém com quem não falava há muito tempo. Era uma situação complicada, apesar de ambos conhecerem-se com a palma da mão. As pendências eram muitas, e ele não sabia como falar-lhe sobre isso pessoalmente, olho no olho. Telefone? Não, seria uma maneira muito fria de se comunicar. Quem tem condições de ouvir e falar com alguém por um aparelho também tem condições de marcar um encontro. Além disso, escolher o telefone só para não encarar uma pessoa demonstra má vontade, e não era essa a impressão que ele queria causar. Já a carta a princípio se apresentava sendo a melhor escolha, ainda mais para alguém como ele, que sabia formular as idéias mas não conseguia se expressar oralmente. E nesse caso em especial era necessário um certo tato com as palavras, coisa que ele não possuía. Tinha medo de fracassar novamente ao usá-las.

Eles brigaram, e muito. Ambos tinham gênio forte, e suas idéias conflituavam constantemente. Veio a falta de paciência, a incompreensão, o desrespeito. Eram constantes as discussões, seguidas de uma lista imensa de ofensas. Usavam as palavras como navalhas, sem a mínima noção da gravidade de seus cortes. No final, os dois lados saíram desfalcados; não houvera um vencedor. A mágoa foi a única que se sobressaiu, e perdurou durante muito tempo. Até que veio a saudade, saudade de uma relação que fora construída desde que ele se conhecia por gente. Aquela intimidade de outrora fazia falta.
Era preciso fazer alguma coisa.

Passaram-se cinco minutos e nada. Depois dez. Quinze.
Ele estava quase desistindo, quando enfim resolveu começar pelo jeito mais simples.
Oi, pai.

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